A euforia do desconsolo

(AMOSTRA)

          Ela vai entrar por aquela porta: sacos na mão, boca calada, uma pedra de orgulho no queixo e seguirá para a cozinha. Depositará as compras sobre a mesa, higienizará as mãos e começará os afazeres domésticos. Certamente vai logo preparar um café, ou um chá, e depois, sem perguntas, me trará uma xícara, como se fosse velha companheira e conhecesse as manias de antigo esposo.

            Eu estou na sala, e olho para esta porta por onde ela vai entrar. Não quero parecer otimista demais, mas é que os sonhos são quase verdades às vezes e eu conto com a possibilidade de um milagre.

                 Profecia? Esperança.

              Os contos de fadas na minha infância foram de grande valia, eu que imaginava todas as coisas que a professora dizia, todas as coisas que ela lia naquele livro sem fotografias, sem imagens rabiscadas, sem caricaturas, sem colorido, só palavras, só letras em preto e branco impressas. Então eu imaginava todas as cenas como se assistisse a desenhos animados, e, quando estive pela primeira vez no cinema, era da voz da professora que eu mais lembrava, das coisas que narrava com grandiloquência e genialidade, como se fosse uma intérprete indescoberta.

             No cinema, era a voz dela que eu ouvia, ela que fora o meu primeiro amor, isto é, minha primeira desilusão. Meu primeiro cinema foi para mim a raspa de alguma coisa sem mágica porque não se tratava de uma história fantástica como as que minha professora contava. O realismo do filme me trazia a proximidade desta vida áspera, e daí minha frustração, porque sou inclinado aos sonhos. E se isso for uma característica patológica do meu cérebro, quem sabe seja eu um corpo a dividir o espaço da alma entre o adulto inconcluso que sou e a criança que eu era, não sei, sei apenas que espero o abrir de portas miraculosas a me apresentar o cenário de um mundo que me faça sentir chacoalhado - não pelo que ele contenha de exótico - mas pelo modo inusitado como se manifestará.

        Não sei se é uma professora ou se é mulher comum. Não vou aos bares. Raramente às ruas. Sou quase mudo e quase imóvel. A esperar. Atenho-me. Essa porta é imperiosa, eu gostaria de trocá-la. Ela me afasta do mundo com o peso do seu corpo e esse jeito de quem impõe uma fronteira. Eu gostaria de uma que rangesse, coisa que esta não faz, esta é muda como a parede que a rodeia. Eu quero uma porta fácil de abrir e que, quando [...]

CONTO PUBLICADO NO LIVRO "CONTOS DE QUASE AMOR". Disponível em:

www.editorialpaco.com.br