A menina

            Foi no tempo das bibliotecas. Quando caminhar até esses espaços públicos para tomar livros emprestados era hábito comum. E se elas – as bibliotecas – não deixaram de existir, também não se multiplicaram. Andam capengas, uma ou duas pernas a menos. E persistem com seus baús e relicários.

Se as bibliotecas ainda persistem, já não se pode dizer o mesmo das cartas.  Salvo algumas exceções, elas perderam o objetivo para o qual foram criadas.

             Por assim dizer, foi no tempo de quando o correio andava devagar e acendia no remetente aquela vigorosa chama de curiosidade: adivinhar o momento em que seu destinatário receberia o papel bordado com as bem desenhadas letras. Quanto ao destinatário - esse ponto no universo - vivia sempre em suspensão tentando adivinhar se naquele dia o carteiro chegaria e, se chegando, lhe estenderia algum papel.

              Foi no tempo das cartas.

         Quando elas inspiravam poetas, amantes, jornalistas, fazendeiros e políticos. Toda sorte de gente que gostasse de conexão. E a julgar pelo futuro que alcançamos, arrisco que, salvo algumas exceções, esses seres especiais que existem em todos os tempos, todos extasiavam ao ter em suas mãos o leve pouso de um envelope trazido pelo carteiro.

            As cartas eram um gesto fascinante. Para quem as enviava e para quem as recebia. Sua chegada era acontecimento singular. Há pessoas que, depois de recebido o sobrescrito, demoravam-se a abri-lo só para prolongar o deleite do instante. Também havia aquelas que, curiosas por ver as palavras que atravessaram o mar, rasgavam o envelope no instante que o recebia, sem mistérios nem prolongamentos.

             Mas o que tenho a contar não chegou pelo correio, carta escrita e posta dentro de envelope com todas as formalidades que o gênero exige. A carta – ou o bilhete - digamos assim, estava dentro de um livro numa dessas bibliotecas públicas frequentadas por leitores que ali vão visitar os mundos. Quem a encontrou foi Fernando Sacramento, conhecido escrivão de polícia dos Barris.

            O homem era dado às páginas. Quase todas as semanas estava a tomar um exemplar novo ou a devolver um que tomara emprestado da Biblioteca Central. Possuía, todavia, um hábito, se não digo trivial é porque era realmente peculiar. O mesmo diziam dele com relação às mulheres, especialmente os próximos da família ou os colegas de profissão:

[...]

CONTO PUBLICADO NO LIVRO "CONTOS DE QUASE AMOR". Disponível em:

www.editorialpaco.com.br

(AMOSTRA)