A mais sublime história de amor

(AMOSTRA)

Parece que o amor é esse corpo trêmulo e inapreensível situado entre o anseio e a dúvida. Não era para dizer isso assim, tão no começo, tão logo, mas acontece que os impulsos são filhos dos anseios, e não da dúvida, e os anseios gostam de nos arremessar ao perigo. Era antes para dizer que não sei se o que vou contar está amparado sob a lógica de alguma verdade ou se anda a procurar qualquer conexão que o caiba. É, certamente, fantasia, contudo. E sendo fantasia já é uma certeza. 

            Preciso contar, tão impulsivo e breve como aquele parto compulsório vomitado na quentura da terra.

A mãe tigre passou a língua nas duas crias paridas na densa mata tropical da Sumatra. Olhos e ouvidos atentos como convêm aos caçadores, pareceu de repente que ela queria se afastar dali, mas a impossibilidade de carregar as duas vidas que não chegavam a um quilo cada inibiu o gesto. Talvez ela tenha percebido algum tremor de terra, um rastro, um barulho, um olhar, não se sabe. E se não tinha o pensamento como o condutor dos seus atos é porque ela era pura hesitação e instabilidade, o que já é um pensamento também.  

            Estava ali uma família em aparente estado de perenidade, condição própria à perfeição animal. A mãe tigre entregou as mamas para os filhos se alimentarem e havia nela dois impulsos, o de dar o leite e o de perceber os perigos. Enquanto os filhotes lhe sugavam, a maneira de quem estava atenta dava a ela uma função que a distinguia daqueles outros dois recém nascidos: a de fugir ou atacar.

            Se falei há pouco em aparente estado de perenidade é que a permanência nesta condição não é ininterrupta. Por isso a tigresa está atenta e contém em si apenas a vida que se é, não a que se foi ou a que será. Está atenta e é perfeita por ser continuidade e permanência. O resto é imperfeição, que ela desconhece.

            Mas a sua perfeição reside no impulso que se manifesta em forma de coragem ou medo. Por isso é toda amor. Porque retém no íntimo o corpo trêmulo e inapreensível situado entre o anseio e a dúvida. Uma fertilidade, assim.

            Se o ataque dá à mãe tigre o combustível para viver, o medo lhe dá outro modo de se proteger. Nesse momento, ela receia.

            A mãe tigre receia.

            Olha a ninhada e sabe que precisa protegê-la.

            Assim viverá os próximos dias, entre anseios e dúvidas, cheia de amor.

            [...]

CONTO PUBLICADO NO LIVRO "CONTOS DE QUASE AMOR". Disponível em:

www.editorialpaco.com.br

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

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