Ester

(COMPLETO)

           Acordou como se comesse maçã e observasse um dia claro. Não era a felicidade nem mesmo a sua total ausência. Talvez fosse mais próximo de uma neutralidade. Mas quantas vezes os aparentes estados de neutralidade escondem certas potencialidades!

Se assim era, Ester parecia não saber. E saiu da cama depois de ter deixado os lençóis ainda cheirosos acariciados pelo solitário corpo. A maciez e a fragrância eram de paz. Deixou a carne aproveitar daquele instante em que a solidão é mais amiga do que uma ameaça. Lá no outro quarto, as crianças dormiam. Avistou o clarão por trás da cortina e entregou-se impotente. Era bom às vezes: os fins de semana são como intervalos.

Felipe não apareceria. Havia duas ou três semanas, nem lembrava com exatidão, que não telefonava, mas isso nem doía. Sentia mais pelas crianças que não cansavam de perguntar pelo pai.

            - Não sabem que ele está viajando?

            E bastava.

            A Ester bastava saber que ser caminhoneiro exigia do marido tempo demais. Era muita estrada a percorrer, pouco tempo para a família. Certa vez uma amiga tentou convencê-la de que por mais que a profissão exigisse a ausência demasiada de Felipe insinuava-se um tanto suspeita. Ester não considerou. Evitando a ruína, preferiu a solidez dos dias brancos.

            Sobre a mesa uma bandeja com vermelhas maçãs. Olhou-as. Tão bonitas! Tão atrativas! Até achou Deus cruel por condenar Adão e Eva. Como resistir a uma coisinha tão delicada? Tão púrpuras, tão bem desenhadas! Ritualizou: não lançaria sua mão brutalmente incivilizada e objetiva no ato concreto de apanhar uma e mordê-la como a falta de sutileza com que um macho às vezes se apodera de uma fêmea. Não. Precisava, porque era bom, cobiçá-la, conhecê-la, repará-la. Por isso prostrou-se sentada na cadeira diante das maçãs sobre a mesa como quem contemplasse a poesia de um quadro.

            Minutos depois, afastou-se e foi até a varanda com uma sensação de vazio e ao mesmo tempo de plenitude, saboreando no abstrato a maçã e admirando o dia branco de puro sol. Foi quando avistou o homem na varanda vizinha. Era a primeira vez que eles se viam assim tão de frente. Ester corou. Das outras vezes, era apenas ela quem, por trás das cortinas, o observava, curiosa pelo vizinho que há um mês fora morar ali ao lado. Normalmente saía de manhã, voltava à noite. Casmurro, homem muito sério. Aparentemente solitário. Duas vezes ele a avistou de longe, quando voltava do trabalho, mas coincidia – coincidia? - dela sair da varanda e tomar o interior da casa. Só não sabia de quantas vezes ele a reparou furtivamente. Agora, aquela proximidade de metros exigia dela um cumprimento. Acenou-lhe com a mão um tímido oi e esquivou-se mais uma vez para dentro do lar sem marido.

            O homem não sabia, mas Ester era uma amiga anônima a lhe dedicar tempo e atenção. Pelas músicas que ele escutava, ela foi compondo o vizinho recente. Pelo andar que ele tinha, pelas roupas que vestia, pelo corte de cabelo, pela ausência de mulher e de filhos e principalmente pelas canções que ele ouvia, pelas mesmas músicas que ele muito repetia, Ester foi caracterizando o homem sozinho, saudoso, romântico e apaixonado. Ali de perto, os olhos próximos, Ester sentiu-se como quem acabasse de cometer um crime e fora apanhada em flagrante. Pior: a fixação dos olhos dele pareceu desnudá-la, sabê-la. Ester não era mais a amiga anônima, mas uma correspondente suspeita. Quando ele acenou, ela enrubesceu, sorriu sem graça e foi ser mãe. Entrou afobada no quarto das crianças, e elas dormiam com a inocência de quem na infância nada sabe das ameaças da vida. Sorriu para elas, tão suas, deixou-as continuar o sono matinal. Saiu do quarto, seguiu para a sala, sentou-se no sofá de frente para a televisão. Olhando assim a casa repleta de móveis estagnados, pensou no marido, em sua ausência, em sua indiferença, e na voz da amiga insinuando possíveis infidelidades. Não fosse comportamento corriqueiro, aquele grande espaço de tempo sem dar as caras, até ficaria receosa de que algo de ruim pudesse ter acontecido. Mas ela sabia que uma hora qualquer ele apareceria como quem houvesse saído de manhã e estivesse retornando no fim da tarde, e ela o amaria com bandejas e perdões.

            As crianças acordaram, e Ester dedicou-se a elas. Depois do café da manhã, resolveu levá-las ao clube para um banho de piscina. Já acomodados em uma mesa, o filho mais velho observou que na outra mesa havia um casal e duas crianças, no que indagou:

            - Por que papai não vem, mamãe?

            Aturdida pelo questionamento do filho, respondeu meio trôpega, mantendo também o olhar fixo na outra família:

            - Ele virá. Outro dia. Da próxima vez.

            Ester, reparando nas pessoas que ali se divertiam, todas aparentando excessivas alegrias - talvez uma piscina fosse motivo suficiente para a felicidade - recordou novamente a voz delatora da amiga:

            - Não é bem estranho que depois de passar tanto tempo fora, viajando... ainda que seja a trabalho... ele chegue em casa e nem lhe procure?

            Como querendo espantar o pensamento ruim, ela tentou um diálogo insustentável com os filhos, depois sugeriu que eles fizessem um lanche. Incentivou-os com a paz já ameaçada:

            - Vão, vão! Vieram aqui pra tomar banho ou pra ficar na mesa olhando os outros?

            Quando a esposa se afastou, o marido da mesa próxima encarou-a enquanto mastigava batata-frita. Ester, outra vez, desconcertou-se. Tinha a impressão de que as pessoas a percebiam na intimidade. Ou talvez fosse a sua timidez que a condenava. Mas os olhos, como os daquele homem agora, pareciam fazer uma leitura que dizia mais do que ela revelava. Era assim que necessitava fugir, quebrar o espelho para que ele não refletisse o espírito do pensamento. Pediu às crianças que se adiantassem, precisava chegar a tempo de preparar o almoço.  A esposa da mesa próxima retornou, e o marido desviou-lhe o olhar.

            Ao chegar em casa, sentiu-se como num lar desabitado. Depois do almoço e da sesta, calculou o peso daquela tarde de sábado. Quanto tardaria ainda de acabar! Era como se quisesse pular o vazio e avançar o espaço seguinte que porventura pudesse ser preenchido. Mas amanhã seria domingo, e os domingos são ainda mais vagarosos. Decidiu ir ao zoológico, mas o céu se anunciou inseguro, nuvens pesadas foram se aglomerando, e logo uma chuva torrencial desabou. Sábado ainda mais indigesto.

            Na casa ao lado, um silêncio de ausências. Ou um silêncio de sintonias. A amiga anônima relembrou o amigo forasteiro enquanto a chuva lhes molhava os jardins. Chuva forte e constante. A tarde já era noite, assim. Mas quando a noite se anunciou verdadeiramente, e a chuva resolveu dar uma trégua, permitindo apenas que uma garoa beijasse as ruas, na casa ao lado uma melodia começou a tocar.

            Ester encontrava-se folheando uma revista, tentativa de esquecer-se. A música logo lhe chamou a atenção. Era o amigo desejando corresponder-se. Ela devia estar pronta para a sintonia. Mas algo já a incomodava. Depois da proximidade do olhar, anseios e impulsos eram combatidos por uma autodefesa já indefesa. Ester correu à varanda para reparar na chuva. Talvez fosse a chuva. Talvez fosse mais que isso. E a canção vinha na voz de Ângela Maria, num canto de outros tempos, saudar aquela paisagem: numa noite em que a chuva chorava lá fora... Eu chorava também porque alguém fora embora... O lamento da melodia fez Ester sentir-se um tanto mais desalojada, porém necessária àquele homem que, na casa ao lado, certamente gritava um nome qualquer. Aquele homem de quarenta e poucos anos, de rosto forte, de beleza rústica, transmitia a Ester uma ânsia de enigmas. Ângela Maria chorava sua Noite Chuvosa, e os versos lambiam as orelhas de Ester como um beijo doce de amor: nunca mais eu chorei, nunca mais, e agora?...Eu até acho graça da chuva lá fora... Findada a música, ele a repetiu. E Ester parecia saber. Parecia saber. Do chamado. E a tristeza não mais existe...

            Abriu o portão, atravessou a garoa, bateu na porta do vizinho. Tão logo ele prostrou-se a sua frente, viu que o homem observava o vestido molhado já um pouco colado à sua pele. E a tristeza não mais existe... Ester não sabia o que dizer, o homem nada perguntou. No entanto, lentamente, ela foi se aproximando... até que, rápida, beijou a boca forasteira. Dois estranhos mundos que se tocavam: fronteiras que se interligavam. Um beijo molhado. O confuso erótico da sensação de levitar na gravidade alheia. Três segundos que a lançaram na dimensão profunda. Deu-lhe as costas e voltou para casa – a casa já habitada por fantasmas – trazendo o molhado dos lábios. Foi até à cozinha porque não sabia aonde ir. Olhou a bandeja de maçãs e, despida de rituais, vendo-as todas vermelhas, todas bonitas, apanhou uma, sedenta e objetiva, e mordeu-a com avidez.

CONTO PUBLICADO NO LIVRO "CONTOS DE QUASE AMOR". Disponível em:

www.editorialpaco.com.br

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

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