Dio come ti amo!

Casamento não é um fato extraordinário. Especialmente neste século vinte e um, quando a opção pela solteirice tem atraído muita gente. No entanto, quero falar de um, que aconteceu em outubro passado: um homem se casou. Este não seria um fato tão formidável se, durante o evento, os dois noivos estivessem presentes. Mas só havia um. Só havia o homem que se casou dizendo sim a si mesmo, exatamente assim, com pleonasmo e tudo.

Eu te amo, meu amor, eu te quero para sempre, meu anjo, eu não vivo sem você, terá dito a si o sologâmico homem diante do espelho. Cem convidados teriam ido à cerimônia, mas, depois de um dos noivos desistir do altar, só compareceram quarenta, os quarenta amigos desse que — empírico pleonasmo — disse sim a si mesmo.

A festa já estava paga. Uma singela quantia de trezentos e cinquenta mil reais abençoaria a união, como não aproveitar? Além disso, o cenário era nada menos que um resort em Itacaré, um paraíso natural, tão irresistível quanto o amor que o médico nutria por si, esse narciso do mundo moderno.

Os narcisos andam por aí, espalham-se por toda parte, trazem espelhos, levam a beleza a sério, apreciam e consomem a própria estética, quando não o próprio eu. Não só os apaixonados pela própria beleza andam multiplicados, os indecisos também: pois como alguém disposto a casar desiste assim três meses antes?

No entanto, sabe-se, há os desistentes de última hora. Desiste-se até no último minuto, quando o padre indaga se é pela livre e espontânea vontade.

Como quem recebe uma descarga elétrica, a ficha cai.

Não, não é pela livre vontade, há uma pressão, sim senhor. Talvez financeira, familiar, emocional, social, cultural, pessoal, interpessoal, política, de convenção, de interesse, minha, do outro.

Os delírios ou entusiasmos, assim, podem chegar ao fim. O de um dos noivos — ambos médicos — chegou ao fim noventa dias antes da data da cerimônia, pela provavelmente constrangida, livre e natural vontade.

Tão livre e natural que voou.

Reivindicou as asas antes amarradas por palavras e beijos, juramentos, orgasmos e planos. Reivindicou as asas: queria-as plenas, grandes, crescidas; não as queria como as dessas galinhas de quem se cortam as penas para inibir o voo.

Como quem vai ao banco solicitar a chave do cofre para resgatar uma joia guardada, o médico renunciante devolveu-se a liberdade ameaçada. Para continuar livre ou aprisionar-se de novo, em outros braços, em novos juramentos, sob outros medos ou felicidades, de outra forma, em outra cama. Ou apenas para estar consigo.

O certo é que um dos parceiros, o sologâmico — quem sabe só por provocação, quem sabe só para chamar a atenção ou quem sabe pelo fato de simplesmente se amar — não cancelou o evento. Insistiu na empreitada, talvez para, feito um poeta, disfarçar a dor, ou, feito um protagonista moderno, divertir-se, zombar ou arriscar. Pois o renunciante — esperança! — quiçá surgisse de súbito feito um raio, uma estrela-cadente ou um milagre, e corresse para abraçá-lo, dizer eu te amo, meu amor, foi loucura minha, eu jamais quis ter agido assim, eu sou um bobo, eu não te mereço.

Como o amor às vezes machuca e às vezes recomeça, o perdão é um amálgama indispensável, especialmente quando os corações machucados subjugam o próprio orgulho para suportar a oscilação do outro. O médico que disse sim a si provavelmente esperou pelo outro, esperou-o aparecer feito uma chuva inesperada, e nem precisaria o outro pedir perdão ou se explicar, ele já o perdoara por antecipação até quando, mais tarde e por alguma questão mal resolvida, decidisse enfiar um bisturi na ferida.   

Esperança: apesar de tantas vezes previsível, o amor é uma questão inusitada.

Se o médico que casou sem seu par esperou pela aparição do ex-noivo, este outro nem de longe deu notícias, este outro optou por não ressurgir nem compor uma cena de cinema feito aquela do filme Dio,  come ti amo! em que, no último segundo, quando a aeronave já está em velocidade e pronta para alçar voo, o galã ordena que parem o avião, desce as escadas e, correndo, vai de encontro à sua amada, que também corre para os seus braços e se acumulam em um único abraço. Uma emocionante ação embalada pela belíssima canção de mesmo nome: Dio, come ti amo.  

Não, não aconteceu como nesse inesquecível roteiro de 1964.

Foi solitário como a vida real tantas vezes o é. Exceto pela presença dos quarenta amigos apoiadores do homem que se casou consigo. Esses amigos não desistiram de usar a roupa escolhida meses antes (geralmente é assim), não desistiram de ir ao evento dar o seu apoio moral, dançar, beber, comer e, quem sabe, esperar que a parte ausente — como um acontecimento extraordinário — de súbito aparecesse. Ou, quem sabe, esperar que no casamento de apenas um, encontrassem (e por que não?) aquele ou aquela que, num futuro próximo, se tornaria o seu par.

Desta vez, um par de dois. Assim: com pleonasmo e tudo.

 

MÁRCIO RABELO

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

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