As esquinas

As esquinas nos surpreendem. Estão ali em seu devido lugar, paradas e mudas por inanimadas. Mas são visitadas e, por isso, guardam alegrias ou tragédias, guardam memórias. Podem servir de palco para atores e cinegrafistas, mas em regra são usadas como palco da vida real a nem sempre nos mostrar o que desejaríamos ver.  

Quando alguém cruzou a esquina e avistou o ser em situação de rua, esse alguém foi invadido por um impulso e tomou outra direção: atravessou a rua para evitar o constrangimento e suprimir o pedido de ajuda que certamente arranharia os seus ouvidos: me dá um dinheiro, me dá um pouco de comida...

Tomando outro rumo, indo pisar em outra calçada, alguém intentou livrar-se não só de ouvir o exato e mísero pedido, mas também de ver a degradante imagem perto de si, pois ver, de igual maneira, já seria por demais chocante.

Esse alguém foi pisar em outra calçada, mas não se livrou do contato que tanto quis impedir; logo ali, depois de uma árvore, havia outra: e, embaixo desta, alguém deu de cara com outro ser nas mesmas condições daquele primeiro que evitou.

O ser — não se sabe se homem ou mulher, todavia gente, todavia humano — vestia panos escuros de tão sujos; e se não digo que vestia calça ou camisa é porque a largura do tecido sobre o corpo magro não dava a suas vestimentas uma distinção, antes cumpria apenas a função de cobrir-lhe a pele e neutralizar o delineamento das formas. A cabeça estava coberta, não por chapéu ou boné, parecia uma malha enrolada em espiral, comprida e suja feito os tecidos que lhe cobriam o corpo.

Eu não quero te ver, pensou alguém diante desse inevitável personagem da vida real, você me choca. Você me choca porque você faz com que eu olhe para mim e me sinta deslocado, você me desestabiliza. Eu não quero te ver porque não me quero cobrar nada, a culpa não é minha, a culpa é desse capitalismo compulsório, a culpa é da sucessão de governos que se abstêm de te olhar, a culpa é da falta de planejamento da família, a culpa é da falta de acesso à educação e moradia, e isso já tem a ver com os governos que não se querem grandiosos, isso já tem a ver com a falta de planejamento familiar, isso já tem a ver com o modelo econômico que visa nos segregar, isso tem a ver com sorte ou azar, isso tem a ver com as religiões, com céu e inferno, isso tem a ver com Deus, isso não tem a ver comigo!

Oh, eu não queria pensar sobre, eu não queria indagar, mas... teria isso a ver comigo?

Teria isso a ver comigo pela minha negligente incapacidade de estender a mão e acolher? Mas eu não posso, por favor, entenda, eu não consigo, desculpa, eu não evoluí o bastante, eu sou um ser inconcluso, eu sou um ser fraco, eu só sou forte para lidar com meus próprios conflitos, eu não sou forte o bastante para lidar com a sua vida dentro da minha.

Desculpa, eu gostaria de te estender a mão, levar-te para a minha casa, dar-te água e um prato de comida, dar-te meus ouvidos para compreender a tua história, dizer-te três ou quatro palavras de conforto, dar-te esperança, eu gostaria, sim, sim, eu gostaria. Mas diante de você eu tremo, eu nem te olho porque se eu te olhar eu me verei por dentro e olhar para dentro é um perigo. O teu corpo abandonado nas ruas é um outdoor me dizendo que a culpa é minha, é um outdoor me dizendo o quanto sou egoísta, é um outdoor me dizendo o quanto eu posso ajudar e não ajudo, é um outdoor me convidando ao diálogo enquanto sufoco o grito.

Envergonho-me neste embate porque eu poderia lhe estender a mão e ao menos te dizer alguma coisa, pois nem sempre é comida o que você quer, às vezes bastaria que eu dilatasse o meu olhar e te encarasse com a humanidade que nos é comum, compreender que viemos da mesma substância e intuir que desde a origem nossos destinos foram cruzados para sempre, ainda que nos evitemos.

Eu não quero te olhar porque eu me sinto envergonhado. Desconfio, contudo, que a culpa não é só minha e certamente não há somente um responsável que em si caiba todas as culpas, não é só do governo, não é só da família, não é só do sistema, não é só da igreja, são de todos juntos e minha também, eu no meio em estado aleatório, sem estrada e em desequilíbrio. Percebendo-te, perdi o trajeto, enveredei pelas esquinas da alma, eu perdi a minha frágil distinção social e daqui do intrínseco eu me vejo, vejo-me onde antes eu estava: nem na base nem no topo, um eixo indefinido vagando pelo meio, de modo que eu podia me dar alimento e água, cama e hospital, analgésico e de vez em quando drogas para dormir.

Deste mergulho onde agora estou, eu me pergunto qual o sentido de tudo, e enxergo o tamanho do abismo, eu vislumbro o gigantesco buraco do egoísmo, e vejo-me em suspensão tentando falar, mas tudo o que consigo são interjeições e onomatopeias, são pensamentos do tipo por que eu não estendo a mão?

Deus, por que eu não estendo a mão?

Esses trapos de gente estão por aí em toda esquina, por que eu não estendo a mão, por que eu não lhes direciono uma palavra, por que eu disfarço e finjo não ter visto? Entretanto, eu vi e quando eu vi eu me vi no íntimo, eu sou parte deles ou eles são parte de mim, não importa, estamos no mesmo barco, navegando o mesmo oceano das ilusões.

Eles perderam a dignidade e eu não posso fugir deles. Não, eu corrijo, eles não perderam a dignidade, essa essência que lhes garante parte da condição humana, eles a têm guardada como um coração calado. Em verdade, tiraram-lhes a outra dignidade, aquela que é cultural, econômica e social, não a humana, a humana ninguém tira, está no pensamento, no menor grau de consciência, nos devaneios e nas emoções. Está nos sonhos de qualidade de vida, que eles certamente possuem.

E se sonham com um futuro melhor, significa que estão vivos, embora o meu olhar por enquanto os perceba múmias por enxergá-los tão maltrapilhos.

Eu quero vos estender a mão, essa é a minha vontade, só não tenho a força, porquanto haveria de ser uma força bruta.

Nesse ponto das aflições, alguém estancou os passos que já iam um pouco adiantados, e se voltou para aquele ser vestido com farrapos. Chegando bem perto, impulso, sentou-se ao lado daquele universo desumanizado, uma compressão por dentro. O ser vestido com os panos sujos, estranhando o gesto, encarou o repentino visitante, que lhe sorriu e recebeu de volta o mesmo riso, embora sem dentes.

Posso te dar um abraço?, alguém perguntou.

E se abraçaram.

Findo o abraço, alguém permaneceu ainda algum tempo calado ao lado daquele humano cuja moradia era a sombra da árvore. Depois, alguém levantou e se foi, carregando a ferida do seu abismo por dentro. Eu sou fraco, desculpa, alguém pensou. Eu não consigo, mas eu preciso, eu preciso, eu preciso estender a mão, eu preciso acolher...

Eu preciso.

 

MÁRCIO RABELO