Histeria coletiva

Essa histeria coletiva

Não satisfaz o meu ego

Preciso de um duplo aguardente

Antes que eu me apavore

Antes do afogamento neste horror

 

Antes que eu estremeça

E a meus sentidos pareça

Antecipei a minha morte

Antes que eu finde

De dormência mental

Antes dos quarenta

 

A febre dessa histeria

É coletiva e epidêmica

E ameaça impregnar

Quem dela se aproxime

E quem dela se abstém

 

Quem sabe uma tripla dose

de aguardente

Quem sabe um imunizante

Me injete um anticorpo

 

E esse corpo rejeite

essa histeria

Eu não te quero

A esse corpo não se conecte

eu não te quero

Que esse corpo renegue

 

Em ladainha

Eu só desejo dessa histeria

o calor sem transmissão

 

Um corpo sem alumínio

madeira

tecido

um corpo em vão

 

Essa ira que eles cantam

se aprofunde apenas neles mesmos

por inanição 

E os devore

E mais os reduza

em números tais

que os nossos se avolumem

 

Esse desejo de involução

ordem de retrocesso

não seja neste século

uma exaltação jorrando chuva aos ventos

 

Tragam cinco doses extras de rum

e uma ponte para atravessar

o caudaloso rio sem margem

 

A potente embriaguez me bastará

e para amanhã

um canto gregoriano

Pois agora

Invada os meus ouvidos

a melancolia de um sax

e em meu devaneio

Instale-se uma ilha

como quem se libertou

 

Essa histeria é tão exata

que não bastará a minha ira

nem o meu asco

Ela cega todo olho que se aproxima

logra e fascina

 

Não, eu não a quero

Atravesso o rio

ainda que a ponte não venha

Digo sim à ilha

Tomo uma dose e deito

Depois amanheço

 

Amanhã me bastará.

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

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