Que voem os ossos!

QUE VOEM OS OSSOS!

 

O que devolveu a amizade à mãe e à filha foi o osso.

Não que o osso seja em si um elemento capaz de unificar coisas situadas além do corpo. Se, formando um esqueleto, ele se ajusta entre órgãos, vísceras e músculos, não é verdade que na vida prática o osso seja lá uma coisa que atraia e conspire em favor de outras. Pelo menos não de modo racional.

O osso pode até espantar.

Quando se fala em osso, logo se pode pensar em um membro qualquer fraturado, um osso exposto para fora da carne, que horror! Ou na carcaça de um bicho morto e abandonado no meio da estrada.  Pode-se pensar na conhecida frase comeu a carne e deixou o osso. Pode-se pensar nos restos mortais de alguém. E o que seria da arqueologia sem os ossos?  

Seja como for, todo mundo pensa no osso com espanto ou indiferença, contudo ninguém pensa no osso como um dispositivo que devolve a amizade a duas pessoas que a haviam perdido.

Pois eu estava com o prato na mão em uma dessas praças de alimentação à procura de uma mesa solitária. Para minha decepção, as mesas estavam todas acompanhadas, um emaranhado de gente se enroscava no limitado espaço àquela hora do almoço. Muitas pessoas, assim como eu, equilibravam o prato na mão à espreita de um lugar onde pudesse degustar, sem companhia, a refeição.

Oh, resignados e exilados do campo, vós estais numa selva de gente e a selva de gente não é muito diferente da selva de bichos. Os bichos em sua maioria comem, geralmente, dividindo a mesma carne. Em parceria caçam e atacam, em parceria rasgam e consomem sua presa. O privilégio de comer a sós não se estendeu a todos os animais.

E aqui estou: pedi licença e sentei-me ao lado de uma moça que comia sanduíche com batata frita. Havia, nessa mesa, além das cadeiras em que eu e a moça estávamos sentados, mais duas cadeiras vazias, que logo foram ocupadas por duas mulheres, mãe e filha. A verdade é que ainda havia o marido desta última, que cedeu o lugar para ela e foi acomodar-se em outra mesa e dividir o espaço com outras pessoas, assim como a gente.

Éramos três desconhecidos na mesma mesa: a mãe e a filha, valendo por um já que se conheciam, eu e a moça da batata frita. Mãe e filha chegaram com os pratos dentro das bandejas e elas não demonstravam felicidade e nem tentavam disfarçar a zanga que as afligia. A princípio, julguei tratar-se do desgosto de terem que dividir o espaço com quem não conheciam, mas depois descobri ter me enganado profundamente.

Em verdade, havia um conflito familiar a rivalizá-las.

— A senhora é assim, a senhora come a carne e deixa o osso, queixou-se a filha com voz baixa, confiante de que eu e a moça da batata frita não tínhamos ouvidos ou, se os tínhamos, os tímpanos andavam entupidos.

Se naquele momento meu pensamento estivesse a vagar por universos astrais, é capaz que eu não tivesse escutado ainda que minha audição fosse perfeita. Inclusive a moça da batata frita também olhou para aquela que seria a filha com uma expressão ainda não decifrada por mim.

— Já lhe falei para você se ocupar apenas com a sua vida, retomou a discussão a mãe.

— Depois a senhora fala que eu é que tenho o gênio ruim.

— Ora! Quantas vezes você já se aproveitou das oportunidades e depois saiu fora? Não sou o único diabo.

— Mas eu conhecia o rapaz e apresentei ele à senhora. Devia pelo menos ter disfarçado um pouco melhor!

A mãe, uma gravidade no rosto, encheu a boca com a comida atrasada. A filha repetiu o gesto e virou a face para o outro lado, não queria olhar para aquela que a havia decepcionado. Note que a esse tempo o clima não estava bom, e o meu almoço perdera um pouco da beleza, consequência da triste hora em que não havia a solitária mesa.

Quando eu pensei em desistir de continuar comendo e abandonar o prato ali mesmo em forma de protesto pela inoportuna situação, a moça ao meu lado, a da batata frita, levantou-se e se foi, ela havia acabado sua refeição e assim se libertava.

— O melhor que temos a fazer é continuarmos mudas uma para com a outra, sentenciou a mãe.

— Eu também concordo.

— Sem nos falarmos é melhor. Cada uma na sua.

Quando, outra vez, eu me decidia a levantar para abandonar o recinto perigoso, o marido da filha veio sentar-se no lugar deixado pela moça da batata frita, de modo que disfarcei meu gesto e permaneci onde estava.

O marido não era mais simpático do que a esposa, e a tensão, em vez de melhorar, ganhou um acréscimo de chumbo, pois o marido também estava em crise com a esposa, embora não demonstrasse por quê.

— Eu não vou dizer é nada, alertou ele, cortando um pedaço de carne e encarando a mulher. Em casa a gente conversa.

Bom, havia chegado ao meu limite; ou melhor, o meu limite transbordara há tempos e eu não sabia ao certo o que me prendera ali além da inexistente mesa solitária. Cumprida a penitência, a moça da batata frita desertara antes de mim. E a minha penitência — decretei — chegava ao fim naquele instante. Mas naquele instante a filha, ao tentar desossar a coxa de frango assado, fizera com que o osso voasse e fosse parar no prato da mãe.

Todos naquela mesa olhamos impactados para o osso invasor e inconveniente.

Espantado, eu não ri.

Todavia, o casal começou a gargalhar ao mesmo tempo. A princípio, pensei que a mãe fosse dar um ataque e esbravejar palavras de ofensas à filha, no que estaria aproveitando para diluir o ódio contra os insultos recebidos pouco antes. Para minha surpresa, o riso coletivo do casal energizou aquela senhora com a mesma alegria que os invadira, e ela, olhando admirada para o osso caído no seu prato, gargalhou ainda mais que os outros, de modo que dos olhos dela escorreram lágrimas felizes.

A esse tempo eu até quis rir, mas não ri. Eu não sabia se devia. E o que veio depois foi ainda mais espantoso por agradável. Filha e mãe, instintivamente, em meio aos excessivos risos, acabaram por se abraçar e se beijar num gesto de paz.

— Eu te amo, filha.

— Eu te amo, mãe.

Graças a Deus.

Que voem os ossos!

 

MÁRCIO RABELO