Ser professor

Ser professor requer coragem. Especialmente se você trabalha com a educação básica em escola pública. Agradeço a todas e todos que desde as últimas horas vêm me parabenizando pelo MEU dia. Afinal, SOU PROFESSOR. E, quando me parabenizam, eu percebo que se orgulham de mim, por me conhecerem professor, mas também por me conhecerem amigo.

 

Há um detalhe, porém. Existe algo de genérico nessas felicitações, é como se — ao dizerem "parabéns pelo seu dia" — dissessem: só pessoas especiais assumem o que vocês assumiram. Não por nada. Mas pelo simples fato de ser o magistério hoje uma profissão pouco atraente e desprestigiada.

 

Todavia, há uma coerência bastante sólida nesse raciocínio, pois, para ser professor no Brasil, é preciso de verdade ser muito especial. Pela coragem de enfrentar os desafios diários, que, não os podendo enumerar aqui, cito dois ou três: falta de estrutura, falta de valorização por parte do poder público, falta de interesse dos alunos (não de todos, óbvio, porque há uma parcela significativa que nos dão orgulho).

 

Mas essa falta de interesse dos alunos - e da qual me queixo - é possível que tenha origem em questões sociais mais profundas, é possível que seja algo atrelado a contextos familiares mais complexos do que suponhamos. De modo que esses escolares estão perdoados, e precisamos resgatá-los. Ou precisamos, enquanto sociedade, nos unir para a melhoria de vida das pessoas, em termos econômicos e culturais.

 

Então surge outra função a que o professor no Brasil está exposto: a função de resgatar vidas, a função de estender a mão para outros seres, tão humanos quanto nós mesmos, os professores. Nos fragilizamos às vezes, porque também temos nossos problemas, porém é preciso sermos fortes e prosseguir tentando ensinar e tentando salvar.

 

Ser professor requer coragem. A sociedade de um modo geral até acha bonito, alimenta a visão romantizada de que o professor é um ser especial. E é mesmo, a sociedade não cometeu engano. Deposita em você um olhar de complacência e sabe que poucos querem fazer o que você faz, sabe que poucos te dão a importância devida, sabe que o seu trabalho não produz riqueza imediata, não em termos do capitalismo selvagem, embora saiba que todas as profissões economicamente mais rentáveis, a exemplo das medicinas e das engenharias, passam pelo talento dos desvalorizados mestres.

 

Requer coragem porque, ao se assumir professor, você sabe que vão te olhar com amor, mas adivinhando o desprestígio, o desrespeito e as desvantagens.

 

Sou imensamente feliz por todas as felicitações com que me presentearam e quero agradecer aqui com riso e festa. Não tenho inveja de outra profissão. Por enquanto, acredito que estou no caminho certo, naquilo que me faz bem.

 

Porque o ruim não é ser professor. Dar aulas é uma delícia. O ruim é trabalhar em salas sem ventiladores (para não exigir ar-condicionado), trabalhar em escolas cujo purificador de água geralmente é pago pelo corpo docente que faz uma "vaquinha" para beber água filtrada, é levar o pó de café de sua casa para você ter direito a esse mimo (se quiser), é trabalhar sem material suficiente para a realização de uma aula diferente, é não ser atendido quando você solicita um transporte para levar os escolares a um museu ou a um teatro, por exemplo etc etc.

 

Ruim não é ser professor. Ruim é trabalhar em tais circunstâncias; e não citei aí nem um terço de todos os problemas, que também têm a ver com burocracias, exigências para atender estatísticas e vistas grossas para detalhes tão pequenos mas incrivelmente importantes.

 

Ser professor nos torna mais humanos. Mas é preciso lutarmos para desfazermos uma estrutura que insiste em jogar ainda mais para baixo a profissão que forma todas as outras.

 

MÁRCIO RABELO.

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

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