EPIFANIA E MORTE: UMA RESTAURAÇÃO DA CONSCIÊNCIA EM MACABÉA, NEGRINHA E DINDINHO

                                                                                                                      Márcio Rabelo

 

 

RESUMO: Este estudo tem como pauta a investigação da epifania e da morte na novela A hora da estrela, de Clarice Lispector, e nos contos Negrinha, de Monteiro Lobato, e O sorriso da estrela, de Aleilton Fonseca. Para o alcance do objetivo proposto, postula-se sobre a capacidade de a epifania gerar tensão e euforia, bem como a ação da morte ser percebida enquanto tragédia e motivadora da restauração da consciência. O estudo será comparativo a fim de evidenciarem-se possíveis similaridades e dessemelhanças, no que se refere ao estado de êxtase, perceptível sob a ótica de um frágil otimismo, e de prostração, que a epifania e/ou a morte possam ter suscitado nas personagens.

PALAVRAS-CHAVE: Epifania. Morte. Luto

 

INTRODUÇÃO

            Os fatos mais banais do cotidiano sempre serviram de aporte à escritura poética. Desde o que se convencionou considerar temas universais aos aspectos mais locais, a todo objeto é dada a possibilidade de se fazer existir pelo olhar de quem o enxerga através de uma lente capaz de elevá-lo a um conceito que transcenda o conceito primitivo. É executando esta ação que as artes, em geral, alcançam o seu objetivo: ressignificando os sentidos literais.

           Pode-se dizer que a morte e a epifania estão no âmbito dos temas universais. Os sentidos mais comuns atribuídos à morte são o próprio ato de morrer, que se situa numa dimensão física, material, e a de entidade abstrata ou imaginária que decide pôr fim à existência de alguém.

          Em sua dissertação de mestrado (2006) intitulada A morte em quatro narrativas brasileiras da segunda metade do século XX, Isabel Maria da Cunha Ferreira trata, em um dos tópicos, sobre os tipos de morte. A pesquisadora subdivide a morte em quatro categorias: a morte natural, a morte social, o homicídio e o suicídio. Poder-se-ia ainda acrescentar a morte “existencialista”, em que alguém, não morrendo para as pessoas no seu convívio social, morre para si mesmo.

        Certo é que a experiência da morte sempre se fez presente nas mais diversas narrativas do mesmo modo que a epifania, enquanto descoberta pessoal, tantas vezes foi usada estrategicamente para desnudar os encontros mais inusitados de personagens que, alargados em suas sensibilidades, encontram a si mesmos através de um seu outro eu.

            Mas o que é epifania e em que sentido ela interessa a esta pesquisa?

           Há, pelo menos, duas acepções básicas. Uma diz respeito à tradição cristã; outra, à tradição literária: a primeira refere-se ao aspecto místico-religioso e relaciona-se ao fato de seres imateriais serem vistos por seres humanos, no que esses estariam a serviço de levar à humanidade “a verdade” que lhes fora apresentada. Uma espécie de vaticínio. A segunda é compreendida como os efeitos que certos fatos potencializam, ou seja, é uma transformação que se dá a partir do desdobramento em que uma experiência aparentemente comum se torna revelação extraordinária (SANT’ANNA, 1973, p.187).      

         É nesse sentido que o presente trabalho procura investigar a epifania e a morte, dois eventos humanos passíveis de representar mais do que simples acontecimentos factuais. Seriam, assim, capazes de provocar em Macabéa, Negrinha e Dindinho, apesar de não saberem estar experienciando uma epifania e nem de notarem a estreita ligação que, contextualmente, a morte tinha com ela, uma restauração nas suas consciências.

TENSÃO E EUFORIA PROVOCADAS PELA EPIFANIA

     Muitos autores já trataram da teoria do conto e, no íntimo desta, fizeram considerações pertinentes a respeito do fenômeno da epifania. Ferreira (2007) em A construção da epifania nas narrativas de Clarice Lispector exemplifica que críticos literários como Álvaro Lins, Roberto Schawarz e Massaud Moisés compreendem a epifania como um “momento excepcional, revelador e determinante (...); momento necessário e insustentável de tensão na narrativa”.

        O que ela chama de insustentável pode referir-se à euforia ou à tensão na qual determinada personagem é exposta quando, diante de uma revelação inusitada, vê-se intimada a refletir sobre o futuro imediato que se lhe é apresentado. A epifania lança a personagem num confronto íntimo e necessário dela consigo mesma em que o estado pulsante de suas emoções precisa de uma ação que lhe restabeleça o equilíbrio.

           Em “A hora da estrela”, Macabéa entra em espanto quando a mesmice de sua vida aparentemente sem perspectiva é sacudida pelas palavras otimistas de madama Carlota. Antes, Macabéa pouco ou quase nada sabia de si mesma, não se importando em questionar a própria vida e o mundo a sua volta. À nordestina chegada ao Rio de Janeiro valia muito mais ter qualquer emprego que lhe assegurasse a subsistência da vida. Para Macabéa, uma folga “roubada” era motivo de felicidade simplesmente porque podia ficar no quarto alugado a escutar a “Rádio Relógio”. Se não conhecia a felicidade, também lhe era ingênua a malícia, e por isso sua amiga de trabalho subtraiu-lhe o namorado. Esta mesma amiga orienta-a a procurar a cartomante, que lhe faz revelações.

      Macabéa entra em êxtase diante do futuro promissor assegurado pela madama Carlota:

- Macabéa! Tenho grandes notícias para lhe dar! Preste atenção, minha flor, porque é da maior importância o que vou lhe dizer. É coisa muito séria e muito alegre: sua vida vai mudar completamente! E digo mais: vai mudar a partir do momento em que você sair da minha casa! Você vai se sentir outra. (LISPECTOR, 1998, p. 76)

 

           A tensão disfarçada em euforia, advinda através do vaticínio da cartomante, gera na personagem um confronto dela consigo mesma. O futuro lhe pareceu voraz por causa da excessiva felicidade que inflava nutrida por detalhes ínfimos: não tendo corpo suficiente, seu busto sem saliência iria sobressair-se porque engordaria.

     Neste encontro íntimo e pessoal, a nordestina descobriu-se precocemente apaixonada por Hans, o homem prometido pela cartomante. Como nunca fora dada a reflexões existencialistas, a paixão (que as pessoas diziam sentir e que ela apenas imprecisamente intuía) lhe pareceu boa e real, mas ainda incompreendida, pois era muita felicidade e ela não estava acostumada a alegrias.

            Macabéa, repleta de futuro, extasiava-se no seu momento epifânico, conhecendo a outra de si: “se ela não era ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho” (LISPECTOR, 1998, p. 79). Extinta a Macabéa desconhecedora do amor e da felicidade, ressurgia uma forma adversa, uma estranha de futuro certo, anunciada pelos lábios vermelhos da madama Carlota. Ganho extra, mal sabia ela, era o corpo que logo se desvaneceria, tornado leve pela subtração da alma. A epifania, no entanto, vivida instantes antes da sua morte, anunciou-se como uma benevolente ação, uma vez que à vida insossa da protagonista adicionou-se o prenúncio daquilo que, se não chegou a concretizar-se, ao menos implantou nela a certeza de um futuro tão certo que para vivê-lo bastaria atravessar a porta da casa da cartomante.

          Se Macabéa, antes da madama Carlota, não conhecera – ainda que sob a capa da esperança – a fatal felicidade, a personagem Negrinha, do conto homônimo de Monteiro Lobato, também não conhecera o estado da alegria antes da presença das duas meninas louras, sobrinhas da sua patroa dona Inácia. O excessivo sofrimento suportado pela criança de sete anos é que vai possibilitar-lhe o encontro com a epifania, que ocorre no instante em que ela passa a habitar um mundo antagônico ao seu, até então desconhecido, do qual desde sempre fora aniquilada.

           Humilhada, espancada e rejeitada, Negrinha vivia “sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças” (LOBATO, 1985, p. 3). Os castigos eram diários e constantes: beliscões, cascudos, cocres: “Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente” (idem, p. 5).

            O “bom tempo” refere-se aí ao tempo da escravidão no Brasil. Negrinha servia a um capricho do qual dona Inácia sentia falta: o de possuir escravos a fim de maltratá-los. O ovo quente, a punição mais perversa relatada no conto, diz respeito à passagem em que a criança negra, depois de ter tido seu pedaço de carne subtraído pela nova empregada, revolta-se contra esta, xingando-a. A sádica patroa regozija-se diante da algoz ideia: “(...) pô-lo (o ovo) na água a ferver; (...) Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto” (LOBATO, 1985, p. 5).

            Obrigada a abrir a boca, Negrinha suporta desesperada o ovo fervente até que este arrefece. Desumanizada moral e fisicamente, a menina, que não conhecia bonecas, espanta-se eufórica diante daquela que lhe fora apresentada pelas sobrinhas ricas e louras da dona Inácia, por ocasião daquelas férias que ali na fazenda foram passar. A epifania irrompe em meio à intuição de que ela, Negrinha, era mais do que fora até então:

 

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa – e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava! (LOBATO, 1985, p. 8).

 

               A partir daí hospedou-se na garota a plenitude de vida que ela desconhecia. Se a epifania é o encontro do Eu com o Mundo (SANT’ANNA, 1973), foi exatamente isto que ocorreu com Negrinha. Como suportaria a partir de então o maléfico ambiente a que sempre fora arremessada diante da constatação de que um outro mais justo e humano lhe era possível habitar? Findadas as férias, as visitantes louras retornaram para sua cidade e a incipiente euforia de Negrinha fora maculada pela tensão que a castigava.

            Se a epifania gerou em Macabéa uma exaltação no sentido do bem-estar a que estava destinada e em Negrinha uma falência emocional nascida pela segregação do mundo infantil que lhe fora suprimido, no personagem Dindinho do conto O sorriso da estrela, de Aleilton Fonseca, a epifania, proveniente da morte de sua irmã, provoca nele uma tensão e um estado de humor que se assemelha a um luto perene.

           Estela morreu aos treze anos, quando Dindinho possuía apenas dez. Sua irmã, sempre sorridente e feliz, tratava-o carinhosamente. Ela tinha um modo muito peculiar de expressar-se, sua sintaxe e suas ideias soavam aos ouvidos de Dindinho e de seus amigos como se fossem construções descompassadas, o que fazia com que Dindinho – nome carinhoso com o qual Estela o batizara – fosse alvo de gargalhadas dos amigos, que a julgavam louca.

            Estela, sem se incomodar com o desprezo do irmão, promete-lhe dar de presente uma das estrelas do céu se ele sorrir para ela ao menos uma vez por dia, no que o irmão desdenha: “ – Ora, quem pode ter uma estrela, “sua doida”?” (FONSECA, 2001, p. 25). Incapaz de acreditar na promessa da irmã e mesmo de lhe sorrir, Dindinho conserva-se solidificado na profusão dos sentimentos que o distanciam da consanguínea.

        A aproximação só vai acontecer quando a fatalidade da morte faz com que ele descubra o amor que sente por ela. Diante da irreversível perda, todo o afeto guardado e rejeitado se lhe é apresentado como uma epifania: “Estela estava morta, aos treze anos. E eu sentia dentro de mim esta morte. Era um pouco também eu morto, sem tempo de me redimir e poder amar minha irmã, como – só agora! – eu sabia ser capaz” (FONSECA, 2001, p. 23).

         As lembranças do narrador são concentradas no instante do velório, em que o caixão espera ser levado ao cemitério. Entretanto, ele rememora cenas em que Estela conversava com folhas, paus e pedras no fundo do quintal e os fragmentados diálogos que ela mantinha com ele. Extraídas essas reminiscências, o que sobra no conto é a nostalgia de um personagem que se ressente de não ter retribuído em vida o carinho que aquela o dedicara: “enquanto é desmontado emocionalmente, Dindinho eleva-se como ser e transforma-se no narrador-personagem que, já maduro, retoma suas lembranças a fim de recriar os fatos passados e transformar Estela num mito, santificando-a para os leitores” (NETO, 2009, p 4).

         A narrativa é confessional e, na tentativa de santificação da irmã, o personagem-narrador procura reparar a indiferença que dedicou à sua consanguínea ao tempo que busca eximir-se da dor que se instala sob a forma de saudade.

 

TRAGÉDIA E BELEZA: POSSÍVEIS PARADOXOS DA MORTE

          A grande maioria das sociedades ocidentais vislumbra na morte motivo de tristeza, de luto. Isabel Maria da Cunha Ferreira (2006) relata, em sua dissertação de mestrado, todavia, que na sociedade brasileira do período colonial o episódio da morte ultrapassava a fronteira do particular e do restrito para atender a uma demanda cultural em que os rituais funerários correspondiam aos processos da publicidade, isto é, à face da exterioridade eram estimuladas manifestações míticas e simbólicas que designavam o catolicismo barroco brasileiro:

A morte era um acontecimento social, tanto para quem partia como para os que ficavam visto que, por um lado, morria-se em casa na companhia de parentes, amigos, sacerdotes e mesmo crianças e, por outro lado, o momento em que saía o cortejo fúnebre constituía um espetáculo onde a pompa poderia ser expressa, tanto na quantidade de participantes como em todo o aparato de objectos funerários utilizados (FERREIRA, 2006, p. 31).

 

             A sociedade brasileira do século 21 ainda vivencia com deslumbre ou desencanto o fato de um enterro ter grande ou pouca quantidade de pessoas, associando a presença vasta ou escassa de público à importância social do morto.

          Morrer em casa rodeado por familiares e sacerdotes, porém, deixou de ser ação comum. Morre-se normalmente em hospitais, local em que aos futuros cadáveres é dada a esperança da reabilitação ou, quando esta não é possível, a possibilidade do que a medicina contemporânea chama de humanização da morte.

          Em termos simbólicos, quanto há de tragédia na morte humanizada? Em termos alegóricos, pode-se haver fruição no gesto da morte?

      Para além da existência humana não fictícia, a literatura gera condições que permitem respostas a esses dois questionamentos, ainda que divergentes ou inconclusivas - pelo alto teor de subjetividade.

           Tomando-se como fonte, para apreciação do último instante da vida de um ser, as mortes de Macabéa, Negrinha e Estela, o que parece contradição – a tragédia e a beleza – pode suscitar análise perpassada pelos vieses do existencialismo humano, da psicanálise e da estética.  

         Dificilmente as três mortes citadas seriam isentas de beleza a um leitor afinado com a função expressiva ou poética da palavra literária. Os narradores das três histórias imprimem os processos artísticos fundamentais para a construção da morte enquanto tragédia e enquanto registro do belo. “O texto literário pode manifestar conteúdos singulares porque não tem de levar em conta nem exigências da realidade, nem exigências da moralidade” (JOUVE, 2012, p. 120).

             Assim sendo, por que não enxergar uma estrutura – em termos de artes plásticas - diante da visão do movimento corporal de Macabéa “que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal”? (LISPECTOR, 1998, p. 84). Caída na calçada depois de atropelada, o fio de sangue escorrendo da cabeça e o pensamento se agarrando ao oráculo da cartomante; por isso mesmo sua resistência em entregar-se ao último instante:

 

Aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande abraço. Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era uma maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou. Quem era é que não sabia” (LISPECTOR, 1998, p. 84). 

           O instante da morte de Macabéa é profundamente psicológico. Se o corpo, em suas derradeiras pulsações, conclama um registro digno de ser traçado na tela de um quadro ou esculpido numa estrutura sólida, o cérebro, fervendo de desejo de futuro, permite um mergulho nas ânsias que a personagem passou a ter depois de entrar em contato com as revelações que se lhe apresentaram uma Macabéa que ela desconhecia. Ela era seus contrários. Tanto que o narrador enxergou ainda para além da simplória dualidade trágico/belo um contorno de lubricidade, talvez originada da esperança do amor que já sentia por Hans: “E havia certa sensualidade no modo como se encolhera. Ou é porque a pré-morte se parece com a intensa ânsia sensual? É que o rosto dela lembrava um esgar de desejo” (LISPECTOR, 1998, p. 84). E, contrariada pelo destino, pronunciou a última frase que perpetuou sua ânsia: “Quanto ao futuro” (idem, p. 84).

             É a mesma ânsia de futuro que não permite mais a Negrinha a possibilidade de vida. Mas esta já vivia a morte social antes da morte natural e nenhum oráculo lhe fora revelado de modo direto. Se algum houvera, foi criado por sua consciência quando, pós-epifania, descobre a existência de um mundo tão mágico e verdadeiro quanto impossível de habitar. Seu grotesco mundo real era a própria tragédia diária. Vivera os anos “sempre escondida que a patroa não gostava de crianças” (LOBATO, 1985, p. 3). Além disso, seu “corpo [...] era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo” (idem, p. 4).

            Torna-se fácil compreender como a vida frágil e sem perspectiva da garota de sete anos se desintegra diante do campo de visão que se lhe fora apresentado. Os maniqueísmos bem/mal e paraíso/inferno retiram da criança seus últimos resquícios de resistência. A brutalidade cotidiana que sofria agigantou-se depois da constatação de que podia sorrir e brincar com bonecas sem que isso se tornasse motivo para retaliações.

             Se Macabéa morreu grávida de futuro, Negrinha expirou com os olhos sem brilho, desvanecidos pelo futuro que ela sabia ser-lhe impossível. Se a cartomante revelou a Macabéa o maravilhoso destino que lhe esperava, dona Inácia incumbiu-se de mostrar a Negrinha o formidável destino que ela nunca teria.

               Vítima da tragédia social, morre negrinha tendo descoberto, no contato com a boneca, que tinha uma alma e que não era coisa. O narrador visualiza no instante final da vida da protagonista o “belo” que ficará registrado e que será contraposto a toda falta de beleza que envolvera a vida da personagem: “Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza” (LOBATO, 1985, p. 8-9).  

          A mesma beleza vista pelo narrador de Negrinha é percebida por Pedro (Dindinho), narrador de O sorriso da estrela, quando, observando a irmã morta no caixão, nota, para além do fato trágico, uma singular beleza, quiçá proveniente dos desejos de reparação e resignação: “Quando me mandaram olhar minha irmã pela última vez, não chorei, pois me pareceu que ela sorria um sorriso longe só para eu sentir” (FONSECA, 2001, p. 27).

              É perceptível que na literatura (e por que não na vida?) tragédia e beleza podem ser comumente nascidas de um mesmo fato. Se os olhos enxergam o drama, também podem enxergar outros encantos e isto não é um dado novo: o barroco, em uma de suas vertentes, já analisava o contraditório como uma forma de composição e estilo.

         Pedro (Dindinho) introduz o relato das suas lembranças lançando o leitor ao instante da passagem de vida que para ele foi o estopim da sua clarividência: “Estava morta a minha irmã, ali entre jasmins e rosas, minha mãe à cabeceira chorava” (FONSECA, 2001, p. 23). Em meio à fatalidade da morte, compreendida por um lado como força aniquiladora, Dindinho vivencia toda a beleza da amizade que a irmã lhe dedicara em vida, rememorando ações que somente agora – na tragédia – era-lhe possível percebê-las como belas: “[...] desde que ela se fora para o hospital, eu comecei a entender seus diálogos compridos com as pedras, com os tocos de pau, com as folhagens ao vento” (FONSECA, 2001, p. 23).

            Pedras e tocos de pau, elementos do mundo inanimado, são apreendidos pelo narrador em um primeiro momento como pertencentes à acepção mais primitiva que possuem. Apenas com a perda irreversível de Estela é que são acrescidos de uma conotação. É nesta extrapolação simbólica que Dindinho, para além da face sinistra do acontecimento, capta a suavidade do sorriso da irmã. Pode ser que não houvesse propriamente um sorriso no rosto expirado de Estela, mas o narrador, sensibilizado pela ausência definitiva, experiencia a passagem do Pedro que era para o Dindinho que começa a ser, o que lhe dá a possibilidade de ler na estagnação da lívida face a ondulação de um sorriso.

 

A EPIFANIA RESTAURADORA DA CONSCIÊNCIA

           Se é possível definir a epifania enquanto revelação que provoca naquele que a vivencia uma transformação, é possível afirmar – no âmbito das histórias analisadas - que essa transformação pode suscitar uma mudança de vida pela restauração da consciência.

             A descoberta que Negrinha teve da existência de um mundo distinto daquele que ela habitava – desprovido de castigos físicos e morais – permitiu-lhe uma mudança de atitude no sentido do definhamento. Perecendo de olhos abertos, vislumbrando a vida bela e verdadeiramente infantil que lhe fora exposta e depois eliminada, a menina sucumbe diante do terror que a invade: é menos medo dos castigos a que já estava acostumada do que da supressão da possibilidade de reviver os dias de criança com amigas, brincadeiras e boneca.

              A epifania em Negrinha gera um restabelecimento de consciência que não pode, todavia, ultrapassar a barreira do desejo: a consciência sofre o conserto, mas o conserto não repara a vida, e nisto reside a decadência da menina, que é conduzida ao abraço da morte.

          A epifania em Macabéa equipara-se à de Negrinha, na medida em que aquela também desconhecia a possibilidade de vida farta e feliz. À sua vida insípida, haveria um acréscimo de sabores especiais que lhe eram desconhecidos: a beleza, a paixão e a riqueza. No entanto, é embriagada desse futuro que ela deixa a casa da cartomante para, logo em seguida, ser atropelada.

          Caída sobre a calçada, Macabéa tem a consciência restaurada: ela era “um vago sentimento nos paralelepípedos sujos” (LISPECTOR, 1998, p. 83).  Esse vago sentimento é traduzido nela pela oscilação entre lutar por viver e conhecer o fantástico mundo que a esperava ou entregar-se ao desligamento do corpo. Macabéa morre, mas sua última frase proferida claramente eterniza a sua consciência reparada: “Quanto ao futuro” (idem, p. 85).

          O futuro que Macabéa não pôde viver, Dindinho viveu. Quanto ao futuro, Dindinho. A este, que teve na morte da irmã sua epifania, foi dada a chance de continuar a ser e de restaurar sua consciência: “Dindinho é a personificação da humanidade de Pedro. [...] A partida da irmã proporciona o seu amadurecimento. Crescer, para Pedro, é tão-somente persistir na vida, deixar-se ser amado e retribuir ao sentimento (NETO, 2009, p. 5).

            É em sua vida pós-morte da irmã que Pedro dilui-se no Dindinho que ele já era para Estela. Sua consciência pós-epifania alerta-o; entretanto, a restauração pela qual passa não lhe garante a sublime redenção. Persistir na vida é deixar-se ser amado e amar, espécie de escudo contra o inesperado das fatalidades.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

     A morte é uma experiência em processo. Ninguém pode experimentá-la concretamente e voltar para contá-la, exceto se levarmos em consideração textos religiosos ou mesmo literários. A morte pode ser percebida enquanto tragédia ou enquanto átimo da beleza de um instante.  

             A relação dos seres humanos com esse mistério parece propiciar uma profusão de sensações variadas, principalmente quando antecedidas por epifanias. As epifanias experimentadas por Macabéa, Negrinha e Pedro constituíram neles fator de extraordinária relevância, uma vez que os conduziram, mesmo indiretamente, à morte, no caso de Macabéa e Negrinha, ou ao persistente estado de luto e busca de redenção, no caso de Dindinho. De uma forma ou de outra, essas personagens tiveram a consciência restaurada – ainda que momentaneamente - no momento do encontro deles consigo mesmos.

 

REFERÊNCIAS:

FONSECA, Aleilton. O desterro dos mortos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

FERREIRA, Isabel Maria da Cunha. A morte em quatro narrativas brasileiras da segunda metade do século XX. 2006. 179 f. Dissertação (Mestrado em Literaturas Românicas). Faculdade de Letras da Universidade do Porto. set. 2006.

FERREIRA, Fernanda Silva. A construção da epifania nas narrativas de Clarice Lispector. Centro de Comunicação e Letras – Universidade Presbiteriana Mackenzie.  São Paulo: 2007.

JOUVE, Vincent. Por que estudar literatura? Marcos Bagno e Marcos Marcionilo, tradutores. São Paulo: Parábola, 2012. LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. São Paulo: Rocco, 1998.

LOBATO, Monteiro. Negrinha. Disponível em: http://oronin.xpg.uol.com.br/gilmara/obras/monteiro_lobato_-_negrinha.pdf. Acesso em: 10. jun. 2016.

NETO, João Evangelista do Nascimento. Quando nasce um mito: diálogo entre O sorriso da estrela, de Aleilton Fonseca, e A menina de lá, de Guimarães Rosa.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Análise estrutural de romances brasileiros. 2. ed.

Petrópolis: Vozes, 1973.

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

  • w-facebook
  • Twitter Clean
  • Branca ícone do YouTube