Crônicas de viagem: as tais batatas

Alguns vivos querem a carne; outros, a folha. Uns tantos desejam a duplicidade, tudo a mais, nada a menos, carne e folha. Todos os vegetais, todas as possibilidades, toda fruta, todo legume, todo tempero, toda especiaria, todo sal, todo açúcar.

Há seres que desistem de quase tudo, querem o quase nada, água e luz, por doença ou saúde. Ou espiritualidade.

Eles têm boca e barriga, língua e olfato, têm desejo.

Diferentes desejos.

Interseções de desejo.

Eis o ponto: as interseções.

Pois com eles estive e viajei: um queria a folha; outro, a carne; outro, toda a folha e toda a carne. E havia o acréscimo, essa interessante nota.

O acréscimo era comum a todos, todos se ligavam na ânsia do acompanhamento, todos se igualavam neste quesito, todos renderam-se ao legume, salivavam pelo carboidrato, todos queriam a batata.

A batata era a grande questão, a batata era o grande acontecimento por excelência, e ela foi o fato que me chamou a atenção, ela, a batata, este acréscimo, este acompanhamento tão singular que se fazia irrevogável.

É que fulano — vendo a galinha, que coisa! ­— desejou a galinha assada com batatas ao forno. Beltrano, pensando na carne, desesperou-se por um bife ao molho com ervas e — adivinhe? — batatas. Já o terceiro imaginou um prato dividido em duas seções: de um lado, a verde alface; e, do outro, três rodelas de batatas cozidas temperadas com uma nesga — palavras suas — de pimenta-cominho e sal.

Como se vê, ninguém renunciava à batata.

Independente do bicho morto para ser cozido, independente da folha lavada para ser mordida, a batata era o que — inevitavelmente — não podia faltar.

Entretanto, foi o que não existiu.

Quando criança, eu imaginava que, se escalasse a última montanha de uma cordilheira, eu conseguiria pegar um punhado de nuvem e colocá-lo dentro de um saco. Imaginativa criança! Mal sabia que, quanto mais eu me aproximasse da última montanha, novas cordilheiras surgiriam e novas distâncias entre mim e as nuvens se interporiam. Sempre assim nessa ordem: escala-se a montanha, distancia-se a nuvem. A vontade que não satisfaz.

 Pois meus viajantes amigos foram vítimas dessa frustração: quanto mais desejavam as batatas, menos elas se ofereciam.

Isto se deu num povoado em algum lugar do mundo, e se não cito o nome é para não afastar futuros turistas comedores de batatas. Naquela ocasião, o preço de alguns legumes andava a escalar montanhas; todavia, descobrimos depois que, para além da alta no específico alimento e de explicações pouco convincentes, a batatinha era mesmo difícil de se encontrar ali.

A galinha pegava-se no quintal. Para a carne vermelha, bastava um açougue. A alface era uma verde flor de formosura facilmente encontrada. Mas a inglesinha...

A inglesinha era um rastro fugidio.

Quanto a mim, que não sonhei com as batatas nem com nenhuma dessas carnes, comi sem passado nem futuro dentro das possibilidades.  Enquanto isso, os manos, os amigos, esses irmãos de humanidade, mastigavam, menos felizes que eu, o almoço: a galinha veio temperada com sangue; a carne com hortelã e alho; e a folha com limão, vinagre e azeite. Mas nenhum deles — por todo o sonho exacerbado, por mais que tenha premeditado, por mais que tenha requerido, por mais que tenha escalado a montanha — nenhum deles se mostrou plenamente satisfeito com a raridade das batatas.

Essas danadas.

 

MÁRCIO RABELO

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

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