Uma leitura de "Catarse" de Antônia Prado

Toda catarse é uma sensação de plenitude. Justamente porque um dos modos de a plenitude se manifestar é quando, imersos em nossa própria consciência, dela não podemos fugir, ainda que a disfarcemos.

Fernando Pessoa já dizia que para sermos grandes haveríamos de sermos inteiros, de modo que não posso compreender a experimentação da catarse senão através do bálsamo dos sentimentos. Mas para nos banhar nesse bálsamo é preciso que alguma coisa nos toque.

A plenitude é um lugar disfarçado de modo, é uma sensação. O modo como se manifesta é o modo como nos sentimos e passamos a operar qualquer desconforto dentro de nós. Nela, na plenitude, só podemos nos entregar, abandonados e indefesos, criança em colo de mãe, e, como tal, grande e inteira. Porque a plenitude é vastidão, a plenitude só pode ser alcançada através de um contato íntimo de alguém consigo no caloroso espaço das introspecções e das entregas.

Quem no mundo das imperfeições se entrega mais do que uma mãe ao filho?

A Terra é uma mãe de muitos filhos.

Essa mãe que a poeta Antônia Prado chamou de Gaia, palavra com que finda seu poema CARTARSE, tem neste exato momento um filho no colo em estado de plenitude.

Ambos, Gaia e filho observam o outro filho devastando as matas. Esse outro filho está enfurecido não se sabe por que aflição; e, por isso, queima, toca fogo, desmata, destrói. Talvez esteja brincando de ser feliz se a sua felicidade é tanto mais plena quando apavora e suprime o outro.  

O ser em estado de catarse experimenta a plenitude no colo de sua mãe, assistindo impotente e desesperado as chamas de fogo e labareda e as motosserras destruindo o planeta. Quando esse filho que está no colo se dá conta da metáfora, ele ainda mais se apavora porquanto descobre o quão grandemente é exponencial a destruição diante de sua limitada visão: “a faísca e a fuligem ferem a córnea da cratera da terra”, “as lavas e labaredas lambem o chão”, “restando cinza e carvão”, “o vento solto voa alto e lança línguas de fogo nas árvores”.

Eu me assusto porque os vocábulos atingem-me, queimam o meu pensamento, dão-me uma sensação de arquejo, o oxigênio foge se, em plenitude, estou entregue, em catarse, perturbado e corrompido.

Sua ação me corrompeu, velho irmão universal, por que não retoma a respiração e devolve o equilíbrio ao seu desalinhado ser?

Diante dessa visão, minha boca tem os “lábios rachados”, como bem colocou Antônia Prado. E “as lábias de discursos ocos ecoam” descontroladas e persuasivas, convencendo infelizes de acrítico pensamento com sua retórica devastadora e suicida tal qual um cadafalso. 

“As narinas secas inflam por oxigênio” quando Gaia e filho percebem que uma “necrose pulmonar” já afeta a sua vida. Enquanto isso, o filho que queima ordena que as máquinas trabalhem a todo vapor e serrem os “troncos tombados” só para ensandecer ainda mais aqueles que elas, as máquinas, já tornaram ensurdecidos.

Mãe e filho se levantam, não dá para continuar a assistir pacificamente ao grito. Só resta a comunhão de todos os irmãos, é a única força capaz de deter e impedir que tudo o mais se inutilize. Clamam que se deem as mãos, bradam que se deitem em plenitude, mas não naquela da inação e da inércia. Evocam a plenitude que recobre ânimo e consciência.

E assim intercedem.

 

MÁRCIO RABELO

 

 

[Ensaio elaborado a partir do poema “Catarse” de Antônia Prado. Todas as citações entre aspas são parte desse mesmo poema].

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

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