O padrão como violência

É notório como nós, os humanos, somos dados às comparações. Atitude bastante sensata, aliás, uma vez que a comparação pode contribuir para o progresso e desenvolvimento das coisas. O problema é quando a comparação cria um modelo ideal — chamado aqui de padrão — e magnetiza o imaginário de quem passa a considerar esse padrão como a mais adequada forma de ser.

Em uma dada cultura, a partir de que referências surge a ideia de padrão? O padrão, embora não se saiba às vezes, já é uma diferença quando comparado a outros padrões. De modo que elegemos um padrão por considerá-lo superior e por considerá-lo melhor, em detrimento de apenas considerá-lo diferente.

E isto gera um grave erro. Um erro tão compulsivo que paralisa quase todo o resto.  

O padrão já é uma diferença, insisto. A escolha desse imaginário, o padrão, faz nascer a barbárie. Os portugueses tomaram como referência as roupas que usavam para vestir os índios. Tomaram como referência a língua que falavam para obrigar o índio a usar o seu vernáculo como modelo de comunicação. E assim sucedeu com a montagem das línguas modernas, especialmente as línguas latinas, que nasceram da imposição quando os territórios dominados foram obrigados a gaguejar o latim vulgar.

O padrão é a leitura que faço do outro a partir de certas características que tomei como verdade. Mas esta verdade é sempre uma pseudo verdade, é sempre relativa, mas não me dou conta de que se trata de um embuste. O padrão é uma violência. O padrão só prova o quanto possuímos em nós de barbárie porque o padrão é a própria exclusão das diferenças.

Contudo, preciso limitar o que estou chamando de padrão. Pois não estou a denunciar o padrão que se estabelece diante de uma pesquisa científica quando, por exemplo, se toma como padrão certas peculiaridades do sangue para efeito de estudo e preservação da saúde. Este é outro tipo de padrão, tem uma finalidade diferente que, ao fim, iguala por dentro os diferentes por fora.

O padrão a que me refiro é de outra ordem, é do âmbito do estético-cultural.

Foi por tomar o padrão ariano como referência que Hitler autorizou a mortandade de milhões de judeus. Foi por tomar o padrão como referência que católicos e muçulmanos tantas vezes provocaram chacinas, esse desvio que certamente não é a base de religião alguma, uma vez que a base de toda religião deveria ser a compreensão, o perdão, a reciprocidade de amor, caridade e piedade.

O padrão cria o machismo, que também mata. O padrão cria a homofobia, que também mata. O padrão cria a segregação por cor de pele, que também mata. O padrão cria meu olhar de repugnância para o outro que tem menos dinheiro do que eu. O padrão me distancia do outro, o que também já é uma violência. O padrão é uma desvirtude, um desserviço social revestido daquela qualificação que engana. O padrão é uma erva-daninha.   

Quem inventou o padrão e de onde ele vem?

Não é possível saber exatamente. Mas com certeza veio do poder e da dominação, da covardia dos mais fortes sobre os mais fracos, não em termos físicos, não é isso, mas pode ser também. Suponho seja em termos macroeconômicos mesmo, quem sabe. Porque o padrão atende a uma ordem e uma ordem não é dada para atingir de maneira nociva a quem a ditou. Antes, objetiva-se às finalidades mais particulares, egoístas e de representatividade de quem as criou.

O padrão é uma construção social. Simbólica e prepotente. Um acordo entre partes, um acordo entre quem maliciosa e criativamente pensa e estabelece a regra e quem, ingenuamente, recepciona e compartilha essa mesma regra, o que já é uma assinatura de aceitação.

O padrão torna-se assim um acordo coletivo, uma arbitrariedade, uma tradição. Torna-se tão enraizado que é quase impossível desconstruí-lo por mais que se saiba a seu respeito.

O padrão é a própria falta de respeito. Porque só acolhe e abarca uma limitada população, enquanto todas as outras permanecem extasiadas diante da impossibilidade do seu alcance.

 

Márcio Rabelo

© 2020 por MÁRCIO RABELO. Orgulhosamente criado para quem gosta de ler ou se dedica à educação e às artes.

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