Sobre escrever: esse gesto de comunicação

Escrever não é juntar palavras. Escrever é selecionar a palavra devida para compor o sentido esperado. É precisão de escolha. É pensar cada palavra não como mera tradução do pensamento, mas inseri-la em contexto que lhe garanta uma fertilidade. Pelo menos quando se quer escrever para permitir o alcance da víscera.

 

As palavras postas em sequência podem terminar por compor o sentido de uma frase, mas se o propósito for dizer um pouco mais ou para além da aparência dessa sequência, deixar alguma coisa para ser cavada nas entrelinhas, há que se fazer o jogo. Há que dar uma tremida, criar um astigmatismo, deixar um buraco à mostra. Não se está aqui a falar de embaçar a palavra ou o seu sentido através de um buraco incoeso; está-se a falar de permitir ao pensamento a intuição, o que significa autorizar o somatório de uma ou duas desconfianças para acrescentar ao que foi dito de modo literal uma ramificação capaz de prosperar.  

 

Da fincada de uma faca não se espera outra coisa senão o acesso à víscera.

 

Pode-se escrever com tinta de aço ou com tinta orgânica, feita de carne, músculo e sangue. Com a tinta de aço, escreve-se, por exemplo, uma notícia de jornal, uma receita culinária ou uma bula de remédio. Com a outra, a feita de músculo ou fibra, compõe-se, dentre outros gêneros, um poema, uma canção, um romance (desde que o estilo esteja entranhado daquilo que chamam de literário).

 

Mas a vida não está isenta de falsificações ou misturas — esses acréscimos com que se compõem outras formas, configurações ou contornos —, de modo que a tinta de aço pode vir adulterada, e a notícia de jornal perder a sua imparcialidade, sugerindo por suspeição a existência de um buraco, sugerindo a existência de um caminho ideológico, esse discurso que é construído sem ser dito ou dito nos interstícios e nos silêncios.

 

Ou, ainda que a fronteira entre o parcial e o imparcial não seja de todo percebida ou comprovada, pode-se correr o risco de, pela falta de uma informação ou pela escolha da seleção das palavras, o aço permitir que a fincada da lâmina possa deixar à mostra qualquer fibra de significação acrescentada e suspeita.  

 

Tem-se aí mais do que um modo ou possibilidade de escritura: com tinta de aço original, com tinta orgânica, com tinta de aço adulterada. Certamente há outros modos, ainda mais viáveis, ainda mais ou menos confiáveis, ainda mais ou menos interessantes. Mas por ora essas três formas bastam para a composição deste pensamento.

 

Tomo por linha epistemológica a segunda forma, a da escritura grafada com a tinta orgânica, puro músculo, pura carne. Se usei três termos diferentes — orgânica, músculo, carne — foi para exemplificar como se pode selecionar um campo de palavras cuja semântica esteja relacionada para mostrar como se pode referir à uma mesma coisa de maneiras diferentes e, no entanto, preservando a unicidade do seu sentido ou a sua relação com outros pares não dissonantes.

 

Assim, quem escolhe escrever com tinta orgânica está aceitando cortar a carne ou o músculo para encontrar a víscera. Porém, uma vez exposta a víscera, perde-se o controle da carne, já não se garante que todo olhar que a veja ou a perscrute faça uso da mesma impressão ou espanto, já não se garante que toda sensação sentida diante do talho tenha a mesma intensidade e extensão.

 

É que quando se corta a carne para o alcance da víscera, nunca se sabe o que será encontrado e nunca se sabe o tamanho ou a potência da víscera, esse buraco inusitado. E aqui surge um problema de outra ordem, embora inteiramente relacionado. Quem escreve é quem corta a carne para expor a víscera: esse sujeito é facilmente localizável ou referido, embora já esteja embriagado. Mas quem encontra a víscera é um sujeito diluído em muitos, é um sujeito envolvido na teia de um pensamento rizomático, espiralizado, cíclico e infinito. É um sujeito, portanto, paradoxal: fragmentado e inteiro por interligado ao campo dos sentidos, esse sujeito foi inserido em renovado diálogo, na incansável e inevitável construção das proposições.

 

Quem olha a víscera, olha para o olhar do outro sobre a víscera. Este, por sua vez, tem o olhar sobre o olhar do primeiro e do segundo que viram a víscera, mas esta ação não se esgotou aí porque cada olhar desses outros foi invadido como numa pirâmide pelas ramificações de outros olhares que já não se sabe de onde veio ou começou.

Eis a teia rizomática.

 

Quem escreveu, quem fincou a faca na carne para a visualização da víscera, não pode garantir controle algum sobre o pensamento do outro, esse mergulho homogêneo em água heterogênea.

 

E a embriaguez de quem, depois de findada a obra escrita, tentou se curar com água ou qualquer outra bebida, tendo mergulhado em água heterogênea, perdeu para sempre a possibilidade de separar as substâncias misturadas e resgatar o elemento por natureza original. O embriagado, terá ele mesmo que mergulhar muitas vezes para compreender o que disse levando em conta toda diluição que se formou no oceano dos mergulhos infinitos.

 

MÁRCIO RABELO